21/01/2026
Energia solar do espaço: como funciona a tecnologia de transmissão de energia “sem fio” para a rede
Se você acha que energia solar é um assunto já totalmente “explicado”, prepare-se para uma virada interessante. Uma nova frente tecnológica está avançando com a proposta de captar a luz do Sol fora da atmosfera, onde a incidência é mais constante, e então enviar energia para a Terra sem cabos, direcionando a entrega para receptores no solo. É uma ideia que parece saída da ficção científica, mas que vem sendo tratada como um projeto de engenharia com etapas bem definidas — incluindo testes reais que ajudam a provar o conceito em condições mais próximas do mundo prático.
Nesse cenário, a energia solar deixa de ser apenas algo “gerado aqui embaixo” e passa a integrar um caminho mais longo: capturar, converter, transmitir e receber. O que chama atenção é que, em vez de depender de infraestrutura física contínua entre origem e destino (como fios e torres), a proposta trabalha com um envio controlado por feixe, como se a energia “viajasse” pelo ar — com tecnologia e segurança como peças centrais dessa equação.
Quem é a Overview Energy (e o que ela está propondo)
A Overview Energy é uma startup americana fundada em 2022 e sediada em Ashburn, no estado da Virgínia (EUA). O foco da empresa é desenvolver um sistema de energia solar espacial: satélites que captam luz do Sol no espaço, de forma praticamente contínua, e retransmitem essa energia para receptores na Terra. A ambição declarada é dar os passos necessários para, em 2030, iniciar operações comerciais com transmissão em megawatts a partir de órbita geossíncrona.
Em termos simples: a Overview quer transformar o Sol “sempre brilhando lá em cima” em eletricidade utilizável aqui embaixo, com a vantagem de ser uma fonte que pode ser direcionada para diferentes regiões conforme a necessidade.
O que significa “transmitir energia sem fio”
O termo “energia sem fio” pode soar misterioso, então vale destrinchar como essa tecnologia é descrita:
- Coleta no espaço: o satélite capta a luz solar continuamente.
- Conversão e transmissão: em vez de “mandar eletricidade por um cabo”, o sistema converte essa energia e a envia como luz infravermelha próxima (um tipo de luz invisível para nós).
- Recepção na Terra: um receptor no solo recebe esse feixe e entrega a energia para uso na infraestrutura elétrica.
Vamos simplificar? Pense em uma lanterna apontada para um alvo. Agora, troque a “lanterna” por um transmissor de infravermelho e o “alvo” por um receptor preparado para transformar essa luz recebida em energia útil. A diferença é que, nesse caso, tudo precisa ser feito com rastreamento e precisão, porque o transmissor pode estar em movimento (ou, futuramente, em órbita) e o feixe precisa chegar ao lugar certo de forma controlada.
Por que o teste “em movimento” é um marco importante
Um dos pontos que mais chamam atenção é que a empresa afirma ter demonstrado a entrega de energia de uma aeronave em movimento para um receptor no solo, a 5 km de distância. Isso é relevante porque, para essa ideia funcionar de verdade no futuro, a transmissão precisa ser estável e precisa mesmo quando a plataforma transmissora não está parada. Em outras palavras: não basta provar que “funciona no laboratório”; é preciso mostrar que funciona em condições que se aproximam do mundo real, com deslocamento, apontamento e controle do feixe.
Esse tipo de validação costuma ser um divisor de águas em tecnologias novas: ela não resolve tudo, mas ajuda a mostrar que o “coração” do conceito — entregar energia por feixe de luz com controle — pode ser repetido em etapas cada vez mais exigentes.
Por que mirar o espaço: o problema que a tecnologia quer resolver
A proposta não nasce da falta de geração de energia — ela nasce de um problema de logística: muitas vezes conseguimos gerar, mas não conseguimos levar energia suficiente para onde a demanda cresce. A empresa descreve esse “vão” entre onde a eletricidade é produzida e onde ela é necessária como um gargalo central do sistema elétrico.
Daí vem a promessa mais diferente dessa tecnologia: satélites poderiam funcionar como “usinas” capazes de mudar para onde entregam energia, direcionando a entrega entre regiões rapidamente e, com isso, aumentando a flexibilidade do sistema. A intenção é que essa “direcionabilidade” gere valor justamente em momentos e locais onde energia firme e disponível se torna mais importante.
O que torna essa abordagem “pragmática” na visão da empresa
A empresa descreve a energia solar espacial como um problema de engenharia com regras duras: para ser viável, precisaria ser segura, financiável (com os primeiros megawatts abaixo de US$ 1 bilhão), competitiva em custo, demandar menos área de terra do que solar tradicional com baterias e ter resiliência (sem ponto único de falha, com design distribuído).
Com base nesses critérios, ela defende um desenho específico: um sistema em órbita geossíncrona (aproximadamente 36.000 km de altitude) que transmite energia como luz infravermelha invisível e de baixa intensidade em um feixe amplo, e que entrega energia para projetos solares existentes na Terra (ou seja, usando infraestrutura já presente como parte do caminho de conexão). A ideia de “feixe amplo” é importante porque, em termos de engenharia e segurança, o comportamento do sistema muda bastante quando você não depende de um feixe extremamente estreito, que exigiria exigências diferentes de hardware e controle.
A empresa também argumenta que seu feixe seria “passivamente seguro”, descrevendo-o como não mais intenso do que o Sol e utilizando comprimentos de onda comuns em aplicações como redes de fibra óptica, imagens médicas e câmeras de segurança. O objetivo, com isso, é reduzir barreiras práticas e tornar mais simples a conversa sobre operação em um mundo com pessoas, vida selvagem, aeronaves e outros satélites.
Roteiro de desenvolvimento: do laboratório ao espaço
Outra parte relevante é o caminho proposto em etapas, como uma escada tecnológica: validações em laboratório em milhares de watts, demonstração aerotransportada (aeronave), uma demonstração em órbita baixa em 2028 e, então, início de operações comerciais em órbita geossíncrona visando 2030, com transmissão em megawatts. A empresa também descreve uma ambição de alcançar capacidade acima de um gigawatt de entrega 24/7 “em qualquer lugar da Terra” no começo da década de 2030.
Esse tipo de “roteiro com marcos” é importante porque torna a conversa menos abstrata: em vez de uma promessa solta, há uma sequência de provas cada vez mais difíceis — e cada prova, se bem-sucedida, reduz um pedaço do risco.
E como ficam os painéis no telhado nessa história?
Aqui é crucial reforçar: energia solar em telhados e em projetos terrestres segue absolutamente central. Ela é a solução mais direta para quem quer gerar a própria energia, reduzir despesas e aumentar previsibilidade, além de ser uma tecnologia madura, amplamente adotada e com benefícios imediatos. O que a energia solar espacial tenta adicionar é uma alternativa de escala e direcionamento, mirando necessidades do sistema elétrico que vão além do consumo de um único imóvel: flexibilidade, entrega contínua e “movimentação” de energia para onde ela é mais valiosa.
Na prática, a visão apresentada coloca a energia solar espacial como complemento: algo que poderia reforçar a rede, melhorar resiliência e ampliar o aproveitamento de infraestrutura já existente — sem tirar o mérito e a relevância do solar tradicional, que continua sendo o caminho mais acessível e eficiente para a maioria das casas e empresas.
Conclusão: uma inovação que mira o “gargalo invisível” da energia
A energia solar espacial ainda está em construção, mas a combinação de demonstrações em condições mais realistas e uma proposta com critérios de segurança, custo e escalabilidade mostra por que o tema está voltando com força: ela tenta atacar o problema que muita gente não vê de primeira — não só gerar energia limpa, mas conseguir entregá-la onde e quando ela faz falta. Se as próximas etapas confirmarem o que já foi demonstrado, essa tecnologia pode virar uma peça nova (e complementar) no kit de soluções energéticas do futuro, ao lado da energia solar tradicional que já transforma vidas hoje.
Referências:
O’DEA, Blathnaid. Startup americana de energia solar espacial comprova que sistema de energia sem fio funciona em movimento. pv magazine Brasil, 30 dez. 2025. Disponível em: https://www.pv-magazine-brasil.com/2025/12/30/startup-americana-de-energia-solar-espacial-comprova-que-sistema-de-energia-sem-fio-funciona-em-movimento/. Acesso em: 14 jan. 2026.
OVERVIEW ENERGY TEAM. 24/7 Energy from Space to Grid. Overview Energy, 9 dez. 2025. Disponível em: https://www.overviewenergy.com/updates/space-to-grid. Acesso em: 14 jan. 2026.
