Uma reportagem publicada pela PV Magazine Brasil, com base em um estudo recente da revista Electric Power Systems Research, trouxe uma reflexão importante sobre o futuro do consumo energético das grandes empresas no Brasil. Em um cenário de preços voláteis, contratos mais sofisticados e busca crescente por previsibilidade, ganha força uma pergunta que vai muito além do setor elétrico: no longo prazo, compensa mais comprar energia de terceiros ou investir em geração própria com usinas solares?
Antes de avançar, vale esclarecer um termo que aparece bastante nesse debate. PPA é a sigla para Power Purchase Agreement, expressão em inglês usada para designar um contrato de compra de energia de longo prazo. Em termos simples, funciona como um acordo em que uma empresa negocia antecipadamente o fornecimento de energia com um gerador, definindo condições comerciais que tragam mais previsibilidade. Já a autoprodução segue outra lógica. Nesse modelo, a empresa participa diretamente da geração da própria eletricidade, assumindo um papel mais ativo na forma como abastece sua operação.
Essa diferença parece técnica à primeira vista, mas na prática ela mexe com algo muito concreto: o custo de funcionar. Energia não é apenas mais uma conta do mês. Dependendo do perfil da empresa, ela pode representar um peso relevante na operação e afetar desde a margem de lucro até a competitividade. Por isso, decidir como contratar ou gerar eletricidade passou a ser também uma decisão estratégica.
Foi exatamente esse tipo de comparação que embasou a análise de uma grande indústria brasileira inserida no mercado livre de energia. De um lado, estavam os contratos privados de longo prazo. De outro, diferentes formatos de autoprodução solar. O resultado que mais chamou atenção foi o desempenho da autoprodução com investimento direto, que apresentou potencial de economia de até 32,9% em relação aos contratos convencionais de compra de energia. Em operações de grande consumo, um percentual assim deixa de ser detalhe e passa a representar uma diferença bastante expressiva no caixa ao longo dos anos.
Para chegar a essa conclusão, a análise considerou uma indústria com consumo médio de 29,2 milhões de kWh por mês, operando continuamente, com 730 horas mensais de funcionamento. A simulação da usina fotovoltaica adotou irradiação média diária de 5,94 kWh por metro quadrado, eficiência global do sistema de 80%, vida útil de 20 anos e taxa mínima de atratividade de 7,5%. Além disso, foram projetados 1.000 cenários diferentes, incorporando oscilações de preços e incertezas econômicas. Isso é importante porque decisões energéticas de longo prazo não podem se basear apenas no valor de hoje. O que parece vantajoso agora continuará fazendo sentido daqui a dez ou quinze anos?
No caso da autoprodução solar com investimento direto, os números ajudam a entender por que esse modelo ganhou destaque. O trabalho apontou payback descontado de 10,32 anos e Taxa Interna de Retorno, indicador usado para medir a atratividade financeira do investimento, entre 11,8% e 18,1%, com valor mais provável de 15,1%. Em outras palavras, não se trata apenas de reduzir a conta de luz, mas de transformar energia em um ativo com potencial consistente de retorno ao longo do tempo.
Outro dado que ajuda a visualizar essa vantagem é o Valor Presente Líquido, indicador que traz para o valor de hoje todos os custos projetados ao longo do período analisado. No caso dos contratos convencionais de compra de energia, o valor mais provável ficou em R$ 1,477 bilhão, com variação entre R$ 1,323 bilhão e R$ 1,605 bilhão. Já na autoprodução com investimento direto, o valor mais provável foi de R$ 0,991 bilhão, variando de R$ 0,925 bilhão a R$ 1,100 bilhão. Como aqui estamos falando do custo total ao longo do horizonte avaliado, o número menor aponta uma alternativa economicamente mais favorável.
Mas isso não significa que a autoprodução seja automaticamente a escolha ideal em qualquer situação. Quanto maior o potencial de ganho, maior também tende a ser a exigência de planejamento. O investimento inicial pesa bastante e aparece como um dos fatores mais decisivos nessa equação. É o chamado CAPEX, sigla usada para indicar o capital necessário para implantar o projeto. Em linguagem simples, é o dinheiro que precisa ser colocado de saída para tirar a solução do papel. E esse ponto faz toda a diferença, porque uma empresa pode até enxergar vantagens no longo prazo, mas ainda assim precisar de um modelo menos pesado financeiramente no curto prazo.
É justamente aí que a conversa fica mais interessante. Entre simplesmente comprar energia de terceiros e investir integralmente em uma usina própria, existem caminhos intermediários. A análise considerou também alternativas como equiparação e arrendamento, modelos que podem reduzir a necessidade de desembolso inicial e tornar a autoprodução mais acessível em determinadas situações. Isso mostra que o mercado não trabalha apenas com extremos. Há estruturas diferentes, com níveis distintos de risco, investimento e retorno, e compreender essas nuances faz toda a diferença na hora de escolher.
Outro aspecto relevante é que o custo da energia no Brasil não depende apenas do preço negociado pela eletricidade. Encargos e tarifas setoriais têm peso importante na conta final. Um dos fatores que mais influenciaram os resultados foi o desconto aplicado sobre a TUSD, a tarifa de uso do sistema de distribuição. Em um dos cenários analisados, um desconto de 78,75% esteve associado a uma economia de 32,90% no valor presente líquido mais provável. Isso ajuda a entender por que uma avaliação superficial pode enganar. Às vezes, duas alternativas parecem parecidas à primeira vista, mas se comportam de forma muito diferente quando todos os componentes do custo entram na conta.
E vale uma segunda reflexão. Quantas empresas ainda tratam a energia apenas como uma despesa inevitável, quando ela já pode ser administrada como uma frente estratégica de economia e previsibilidade? Em setores de consumo elevado, essa mudança de mentalidade pode representar muito mais do que alívio na fatura. Pode significar ganho de competitividade, proteção contra oscilações do mercado e mais segurança para planejar o crescimento.
No fim das contas, a mensagem é simples: gerar a própria energia solar, especialmente em operações de maior porte, pode trazer ganhos muito expressivos quando existe planejamento adequado. Ao mesmo tempo, contratos de compra de energia continuam tendo seu espaço, sobretudo quando a empresa busca simplicidade ou quer evitar um investimento inicial mais pesado. Não existe uma resposta única, porque cada operação tem seu próprio perfil de consumo, apetite a risco e capacidade de investimento.
É nesse cenário que contar com uma empresa preparada se torna decisivo. A Inovacare SOLAR acompanha de perto os movimentos do setor e ajuda seus clientes a entender, de forma clara e estratégica, quais caminhos fazem mais sentido para cada realidade, seja em projetos de energia solar, seja em soluções no Mercado Livre de Energia.
Referências:
NEVES, Lívia. Autoprodução solar pode gerar economias de até 32,9% em relação aos PPAs convencionais. pv magazine Brasil, 15 abr. 2026. Disponível em: https://www.pv-magazine-brasil.com/2026/04/15/autoproducao-solar-pode-gerar-economias-de-ate-329-em-relacao-aos-ppas-convencionais/. Acesso em: 23 abr. 2026.
MELO, Bruno Valdivino; NOGUEIRA, Levi dos Santos; CABRAL, Eduardo Almeida; TOFOLI, Fernando Lessa; GREGORY, Raquel Cristina Filiagi; SAMPAIO, Raimundo Furtado; MELO, Lucas Silveira; LEÃO, Ruth Pastora Saraiva. Economic assessment of long-term power purchase agreements and self-generation of photovoltaic solar energy: Case study of a large industry in Brazil. Electric Power Systems Research, v. 258, 2026, art. 113070. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0378779626003639. Acesso em: 23 abr.
