O agrivoltaico parte de uma ideia cada vez mais relevante: usar a mesma área para produzir energia solar e manter a atividade agrícola. Mas, para que essa combinação funcione de verdade, não basta instalar painéis sobre o terreno e esperar que tudo se ajuste sozinho. A grande questão é entender como organizar o sistema fotovoltaico de modo que a fazenda continue produtiva, especialmente quando depende de mecanização para plantar, manejar e colher.
Foi justamente esse ponto que um estudo recente buscou aprofundar. A pesquisa, publicada na revista Agricultural Systems, foi conduzida por uma equipe liderada pela Universidade do Colorado, com participação de cientistas do Laboratório Nacional das Montanhas Rochosas, da Colorado State University e do Departamento de Agricultura do Colorado. O trabalho analisou como o espaçamento entre fileiras de módulos fotovoltaicos influencia a viabilidade econômica de sistemas agrivoltaicos em larga escala no Colorado, nos Estados Unidos. A conclusão central chama atenção: em muitos casos, ampliar esse espaçamento pode ajudar a preservar a agricultura mecanizada e, ao mesmo tempo, manter o projeto energeticamente atrativo.
O que o estudo avaliou na prática
Em vez de focar apenas no que acontece sob os painéis, como sombra sobre as plantas ou mudanças no microclima, os pesquisadores olharam com mais atenção para o espaço entre as fileiras. Isso muda bastante a discussão, porque o agrivoltaico em larga escala não depende apenas da resposta das culturas à presença dos módulos, mas também da capacidade de a operação agrícola continuar funcionando com eficiência. Em outras palavras, o projeto precisa permitir que máquinas entrem, circulem e trabalhem sem comprometer a rotina do campo.
Para avaliar isso, os autores montaram uma estrutura econômica que combina geração de eletricidade, receita agrícola, custos do sistema e indicadores financeiros. Entre eles está o PPA, sigla para Power Purchase Agreement, ou acordo de compra de energia. Na prática, trata-se de um contrato que define por qual preço a eletricidade gerada será vendida ao longo do tempo. Esse valor é importante porque influencia diretamente a rentabilidade do projeto solar. O modelo também considerou métricas como o VPL, que mede o retorno financeiro ao longo do tempo, e o LCOE, que representa o custo médio de geração da energia durante a vida útil do sistema.
A simulação foi feita para um projeto de 160 acres, equivalente a cerca de 64,75 hectares, com horizonte de 25 anos. Foram avaliadas quatro culturas: batatas, cebolas, beterraba-açucareira e trigo. Cada uma delas exige um espaço mínimo diferente para a operação das máquinas agrícolas, e é justamente aí que o arranjo dos módulos passa a ter peso decisivo no resultado econômico final.
Por que espaçar mais pode fazer sentido
Em um projeto solar convencional, é comum pensar que colocar mais módulos na mesma área é sempre a melhor escolha. De fato, fileiras mais próximas tendem a aumentar a capacidade instalada por hectare. O problema é que, no agrivoltaico, a lógica não pode ser apenas elétrica. Quando o sistema fica adensado demais, a agricultura mecanizada perde espaço, e isso reduz ou até inviabiliza parte da receita agrícola que justificaria o uso compartilhado da terra.
O estudo mostrou que ampliar a distância entre fileiras pode melhorar esse equilíbrio. Mesmo com uma densidade fotovoltaica menor, o projeto passa a acomodar melhor os equipamentos agrícolas e a preservar a atividade produtiva no campo. Para a maioria das culturas analisadas, os autores observaram que um lucro agrícola em torno de US$ 200 por acre já seria suficiente para justificar um espaçamento mínimo de 9,66 metros entre fileiras em vez de uma configuração pensada apenas para maximizar a instalação solar.
Outro resultado importante foi a forte sensibilidade do modelo ao tamanho do maquinário. Os pesquisadores destacam que pequenas mudanças no espaçamento podem alterar de forma relevante o preço de PPA necessário para que o projeto atinja o ponto de equilíbrio. Isso ajuda a mostrar que o agrivoltaico não depende apenas de uma boa ideia geral, mas de um desenho bastante cuidadoso. Um ajuste aparentemente simples na geometria do sistema pode mudar de forma significativa a conta econômica.
O principal recado do estudo
Talvez a contribuição mais valiosa desse trabalho seja mostrar que a viabilidade do agrivoltaico não deve ser medida apenas pela quantidade de energia produzida por área. Em projetos desse tipo, o verdadeiro objetivo é encontrar um arranjo em que a terra continue sendo duplamente produtiva. Isso significa aceitar que, em muitos casos, abrir mão de um pouco de densidade fotovoltaica pode ser justamente o que torna o conjunto mais viável.
Os autores também observaram que sistemas com fileiras mais largas podem tolerar melhor variações de custo de capital e continuar competitivos em comparação com configurações exclusivamente fotovoltaicas. Além disso, o modelo foi testado em diferentes tamanhos de propriedade e em diversos condados do Colorado, o que reforça a utilidade da estrutura proposta como ferramenta de análise para outros contextos, desde que as condições locais sejam consideradas com cuidado.
No fim, o estudo ajuda a amadurecer a conversa sobre agrivoltaico. Em vez de tratar o tema apenas como uma tendência promissora, ele oferece uma forma concreta de pensar projeto, operação e retorno econômico de maneira integrada. Esse tipo de abordagem é especialmente importante em um momento em que a expansão da energia solar precisa avançar com cada vez mais eficiência, estratégia e capacidade de adaptação às diferentes realidades do território.
Na Inovacare Solar, entendemos que o futuro da energia passa por soluções bem planejadas, tecnicamente consistentes e conectadas às necessidades reais de cada aplicação. Por isso, acompanhar estudos como esse é fundamental: eles ajudam a mostrar que inovação, no setor solar, não está apenas na tecnologia em si, mas na forma inteligente de implementá-la para gerar valor, sustentabilidade e resultados de longo prazo.
Referências
KAHANA, Lior. Maior espaçamento entre módulos solares pode aumentar viabilidade de projetos agrovoltaicos. pv magazine Brasil, 16 mar. 2026. Disponível em: https://www.pv-magazine-brasil.com/2026/03/16/maior-espacamento-entre-modulos-solares-pode-aumentar-viabilidade-de-projetos-agrovoltaicos/. Acesso em: 26 mar. 2026.
MIRLETZ, Brian; MCCALL, James; BRYAN, Samantha; AL MUKHAINI, Dala; NGUYEN, Claire; ANDERSON, Sam; WEILER, Stephan; MACKNICK, Jordan. Spaced out: An economic framework to explore the impacts of PV panel spacing on large scale agriculture in Colorado. Agricultural Systems, v. 234, 2026, art. 104664. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0308521X26000521. Acesso em: 26 mar. 2026.
