A agrovoltaica deixou de ser apenas uma ideia promissora e passou a ser objeto de análises científicas profundas. Um dos estudos mais completos já realizados sobre o tema foi publicado em 2026 na revista internacional Renewable and Sustainable Energy Reviews, uma das mais respeitadas do mundo quando o assunto é energia e sustentabilidade.
O artigo, intitulado “Agrivoltaics as a systems innovation: multi-dimensional benefits from global studies across climate, agriculture, energy, and ecosystems” (em tradução livre: Agrovoltaica como uma inovação de sistema: benefícios multidimensionais a partir de estudos globais sobre clima, agricultura, energia e ecossistemas), foi conduzido pelos pesquisadores Uzair Jamil e Joshua M. Pearce, da Western University, no Canadá. Trata-se de uma revisão sistemática que analisou 88 estudos científicos, realizados em diferentes países, climas e sistemas agrícolas, para entender os impactos reais da agrovoltaica muito além da simples geração de energia.
O resultado é claro: a agrovoltaica não é apenas uma solução técnica, mas uma inovação de sistema, capaz de gerar benefícios simultâneos para a agricultura, o meio ambiente, a economia e a sociedade.
Afinal, o que é agrovoltaica?
A agrovoltaica consiste na instalação de painéis solares fotovoltaicos sobre áreas agrícolas, de forma elevada e espaçada, permitindo que o solo continue sendo utilizado para o cultivo de alimentos. Assim, a mesma área passa a cumprir duas funções essenciais: produzir comida e gerar energia limpa.
O grande diferencial desse modelo é que ele evita a competição por terra, um dos principais desafios da transição energética global. Segundo o estudo, substituir todas as fontes fósseis por energia solar exigiria grandes extensões de terra. A agrovoltaica surge justamente para integrar essas demandas, em vez de colocá-las em conflito.
A sombra que ajuda a plantar melhor
Um dos achados mais interessantes do estudo está relacionado ao microclima criado pelos painéis solares. Em diversas regiões analisadas, a sombra parcial gerada pelos módulos reduziu a temperatura do ar e do solo em até 4,2 °C, um fator decisivo para culturas sensíveis ao calor excessivo.
Essa proteção térmica reduziu o estresse das plantas e contribuiu para ganhos reais de produtividade. Alguns exemplos observados nos estudos analisados incluem:
- Aumento de até 48% na produtividade de aipo-rábano (celeriac) na Alemanha
- Ganhos entre 10% e 69% em hortaliças folhosas, como alface e chicória, na Itália
- Incrementos de 100% a 200% na produção de tomates em experimentos nos Estados Unidos
Ou seja, em muitos casos, a agrovoltaica não apenas preserva a produção agrícola, como a melhora significativamente.
Menos água, mais eficiência
Outro ponto central do estudo é o impacto da agrovoltaica sobre o uso da água. A revisão científica aponta reduções consistentes na evaporação do solo e na necessidade de irrigação, graças à sombra dos painéis.
Os dados mostram que:
- A eficiência no uso da água pode aumentar em até 157%
- A necessidade de irrigação pode ser reduzida em até 47%
- O teor de umidade do solo pode aumentar em mais de 50% em determinados sistemas
Em um cenário global marcado por secas mais frequentes e crises hídricas, esses números indicam que a agrovoltaica pode ser uma aliada estratégica para a agricultura resiliente ao clima.
Um impacto direto na segurança alimentar global
Ao analisar apenas culturas que já apresentaram ganhos comprovados sob sistemas agrovoltaicos, os pesquisadores projetaram cenários de adoção em larga escala. Os resultados impressionam.
Segundo o estudo, a agrovoltaica poderia gerar até 1,8 bilhão de toneladas adicionais de alimentos por ano, o que seria suficiente para alimentar mais de 2,1 bilhões de pessoas anualmente, considerando uma dieta média global.
Os próprios autores reforçam que esses números representam cenários de alto potencial, não previsões exatas. Ainda assim, eles ilustram de forma clara o tamanho da oportunidade: integrar energia solar à agricultura pode se tornar uma ferramenta concreta no combate à fome e à insegurança alimentar.
Energia limpa sem abrir mão do campo
Além dos ganhos agrícolas, a geração de energia solar nos sistemas agrovoltaicos mostrou-se altamente eficiente. O estudo indica que grandes sistemas agrovoltaicos poderiam atingir centenas de gigawatts de capacidade instalada, contribuindo de forma relevante para a descarbonização da matriz energética.
Há também um benefício indireto importante: como os painéis operam em temperaturas mais baixas, seu desempenho elétrico tende a melhorar. Em alguns casos, a demanda energética das próprias atividades agrícolas foi reduzida em até 67%, graças à melhoria do microclima.
Mais renda, mais estabilidade para o produtor rural
Do ponto de vista econômico, a agrovoltaica oferece uma vantagem clara: diversificação de renda. O agricultor passa a contar não apenas com a venda de alimentos, mas também com a geração de energia.
O estudo reúne dados que mostram:
- Aumentos de rentabilidade superiores a 100% em alguns sistemas
- Crescimento expressivo da renda rural em diferentes países
- Geração de até 2,3 milhões de empregos-ano, considerando cenários de expansão
Essa combinação torna o campo mais protegido contra oscilações climáticas, de mercado e de custos energéticos.
Benefícios que vão além da lavoura
A análise científica também identificou impactos positivos sobre:
- Biodiversidade local
- Qualidade do solo e atividade microbiana
- Bem-estar animal, com redução do estresse térmico em sistemas de pastagem
Em algumas regiões, por exemplo, a sombra proporcionada pelos painéis reduziu a temperatura corporal de animais e melhorou seu conforto, refletindo em ganhos de produtividade.
Agrovoltaica: um caminho promissor, inclusive para o Alto Tietê
O estudo demonstra que a agrovoltaica é mais do que palavras bonitas num papel: é uma solução que combina agricultura e energia solar de forma inteligente, capaz de aumentar a produção de alimentos, economizar água, melhorar a eficiência energética e ampliar a renda rural, com números que chegam a até 1,8 bilhão de toneladas de alimentos adicionais por ano em cenários de adoção ampla, suficientes para alimentar mais de 2,1 bilhões de pessoas globalmente.
E se você pensar localmente, essa combinação faz ainda mais sentido. Cidades como Mogi das Cruzes, no Alto Tietê, já são referências agrícolas no Brasil. O município possui um setor agrícola forte e diversificado, com destaque nacional na produção de hortaliças, persimmons (caqui), cogumelos e orquídeas, além de estar entre os melhores colocados no ranking do programa Município Agro do Estado de São Paulo, ocupando a 9ª posição entre mais de 117 cidades avaliadas recentemente.
Mais do que números, isso mostra que a região tem solo produtivo, tradição agrícola e mercado consumidor próximo, características que favorecem a adoção de tecnologias inovadoras como a agrovoltaica. O Alto Tietê abriga milhares de estabelecimentos rurais e contribui com cerca de R$ 1 bilhão em receita bruta agrícola anualmente, com grande participação da horticultura e da floricultura, setores que podem se beneficiar diretamente da integração com a energia solar sem perder produtividade.
Para nós, da Inovacare SOLAR, essa realidade representa uma oportunidade concreta de atuar não apenas com fornecimento de energia limpa, mas como parceira de transformação sustentável no campo e nas comunidades onde a agricultura familiar e tecnológica caminham juntas. Acreditamos que soluções como a agrovoltaica, mesmo que ainda em fase de expansão, mostram que é possível unir produtividade agrícola, sustentabilidade ambiental e geração de energia renovável no mesmo espaço, especialmente em regiões com potencial produtivo como o Alto Tietê.
Seja no campo, na indústria ou no seu projeto de energia solar, o futuro passa por escolhas inteligentes e integradas. E a agrovoltaica é exatamente um exemplo do que podemos construir quando tecnologia, natureza e visão estratégica se encontram.
Referências:
MAIA, Leandro. Mogi das Cruzes destaca-se como potência agrícola; inclusão da cannabis nas políticas públicas enfrenta barreiras. Sechat, 09 set. 2025. Disponível em: https://sechat.com.br/noticia/mogi-das-cruzes-destaca-se-como-potencia-agricola-e-discute-inclusao-da-cannabis-nas-politicas-publicas. Acesso em: 28 jan. 2026.
SEBRAE-SP; CONDEMAT+. Estudo do Sebrae-SP e Condemat+ aponta agricultura como potência econômica no Alto Tietê. Agência Sebrae de Notícias (ASN SP), 18 set. 2025. Disponível em: https://sp.agenciasebrae.com.br/cultura-empreendedora/estudo-do-sebrae-sp-e-condemat-aponta-agricultura-como-potencia-economica-no-alto-tiete. Acesso em: 28 jan. 2026.
JAMIL, Uzair; PEARCE, Joshua M. Agrivoltaics as a systems innovation: Multi-dimensional benefits from global studies across climate, agriculture, energy, and ecosystems. Renewable and Sustainable Energy Reviews, v. 230, p. 116721, abr. 2026. DOI: 10.1016/j.rser.2026.116721. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1364032126000201. Acesso em: 28 jan. 2026.
KAHANA, Lior. Agrivoltaica pode gerar mais de US$ 1 trilhão em renda adicional para setor agrícola global. pv magazine Brasil, 23 jan. 2026. Disponível em: https://www.pv-magazine-brasil.com/2026/01/23/agrivoltaica-pode-gerar-mais-de-us-1-trilhao-em-renda-adicional-para-setor-agricola-global/. Acesso em: 28 jan. 2026.
